Opinião

Porque para mim o dinheiro não é tudo

Written by Timóteo Caixeiro

Sabes que nunca fui de me queixar mas digo-te isto.

O meu pai sempre me ensinou, toda a vida: “Um homem-como-deve-ser deve ser brioso em tudo o que faz”, não se apresentasse sempre com a roupa impecável e a barba feita de fresco. Sempre foi assim, e ainda seria, não fosse ele rigorosamente pontual, até na esperança média de vida do nosso país. Chegar atrasado é que nunca. Antes morrer a tempo e horas.

E morreu assim, disciplinado. Como o meu avô, que lhe transmitiu tudo isto que a sua formação militar lhe trouxe. Só não sei se ele soube porquê, o meu pai. Se o exemplo que seguia era o que devia seguir. Nunca tive coragem de o questionar sobre isto, sei que ficaria ofendido. Mas sei que percebeu também que eu já sou diferente.

E com razão: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

A verdade é que eu também quero fazer tudo bem, mas preciso que mo reconheçam. Chega de humildades desmedidas. Chega de ser motor que não é oleado mas que nunca dá de si. Chega de subserviência hierárquica. Eu sou bom e eu estou aqui, e faço a diferença.

O tempo da continência para mim acabou. O meu patrão dá cabo de mim e mal deve saber quem sou. Acha que sou um pateta que por lá anda. E eu, parvo, continuo e pareço um robô.

Mas se fosse uma máquina não tinha espírito nem sentido crítico. Seguia à risca a minha programação e dos meus antecessores e não me indignava com isto. Só que não é vida para ninguém lutar por uma causa em que mal sou visto.

Mas não me vou despedir para já, não te preocupes. Não te tiro da cabeça, nem aos miúdos. (E é só por isso não me atiro de cabeça.) Mas fica a saber que vou começar a ver outras coisas. Não pretendo travar guerras em que nem me reconhecem como soldado. Se o meu pai soubesse disto se calhar matava-me e agora estávamos lá os dois juntos. Depois explicava-lhe, com tempo, como funcionam as coisas agora.

Estamos no século XXI e vivemos na era da tecnologia. Estamos expostos a tudo e sabemos o que se passa lá fora. Ouvimos falar dos grandes contratos e de genuínas relações. É óbvio que me crescem as ambições. E nem peço para ser conhecido, mas ao menos reconhecido. Ao menos que me vejam como um homem de valores, não como uma máquina com um valor. É que o problema é mesmo esse: para mim o dinheiro não é tudo, nem para eles deveria ser.

Quero que me tratem pelo nome e quero uma palmada nas costas quando vingar. Quero que me chamem a atenção e quero temer pelo meu emprego, quando vou a uma reunião depois de falhar. Não quero emails automáticos para a equipa e para os quais nem consigo responder. Quero sentir-me bem na minha empresa e ter uma palavra a dizer.

Dizem que sou parecido com o meu pai. A diferença é que, para mim, o valor mais alto não é a fidelidade. É o orgulho.

E desculpa mas não aguento.

Sabes que nunca fui de me queixar mas digo-te isto.

Temos que arranjar outro sustento.

Sobre o autor

Timóteo Caixeiro

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